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Darfur à espera Versão para impressão
Quinta, 07 Outubro 2010 13:37

LIBERDADE LIMITADA

20101007_P.FelizO conflito no Darfur, Sudão, continua, como testemunha o P.e Feliz da Costa, comboniano português. Em Nyala, missão bem no coração daquela problemática região, desde 2006, aquele missionário lamenta que as eleições de Abril passado tenham piorado a situação.

As eleições de Abril 2010 foram um marco na história do Sudão em que esperávamos se realizasse a anunciada viragem política em direcção à democracia no país. Mas, pelo contrário, com o período pós-eleições veio o temor e o tremor para quem, no Norte e no Sul, ainda mantinha viva a esperança. A censura da imprensa nacional foi severamente reactivada.

No Darfur, repetiam-se as negociações de paz em Doha (Qatar). A seriedade e a vontade política do Governo sudanês e dos movimentos rebeldes armados deixam muito a desejar. Uns e outros são alvo do absoluto ridículo, fazendo acordos de cessar-fogo sem empenho nem compromisso de parte a parte, aproveitando a trégua para aumentar o seu próprio arsenal e preparar os ataques para os dias seguintes.

VOLTA O MEDO
O medo voltou a dominar o nosso meio ambiente. As condições nos campos de desalojados são cada vez mais precárias. A liberdade de acção das ONG e da própria ONU é cada vez mais limitada, sendo alvo de ameaças, sobretudo no que respeita a sequestros de veículos e pessoas.

Mais dois nomes foram apagados da lista dos funcionários de organizações humanitárias: a Laura (italiana) e a Carla (espanhola), ambas residentes nesta nossa cidade de Nyala, receberam ordem para deixar o país. Não foram dignas sequer de ouvir a razão e o porquê daquela inesperada ordem.

Para alívio de muitos corações, foi anunciada nestes dias a libertação de dois alemães que tinham sido sequestrados quase dois meses atrás. No entanto, a nossa vizinha e amiga americana Flávia ainda continua, infelizmente, em poder dos sequestradores.

Quem são os autores de tais crimes? Numa sociedade como esta em que a anarquia está na ordem do dia e a lei é letra morta, o Governo aponta o dedo aos movimentos rebeldes como primeira causa desta calamidade que tanto continua a afligir o Oeste sudanês. Depois está o banditismo armado: com o nome de janjauides ou simplesmente bandidos (organizados ou não), actuam com incrível liberdade e à luz do dia, sem vergonha nem pudor. A Kalashnikov nas suas mãos traz, segundo o pensamento de não pouca gente, o selo da cumplicidade do Governo sudanês.

BATALHA EM KALMA
20101007_escolaDa minha janela aberta, ouço vozes de gente que passa na rua falando do triste acontecimento destes dias no acampamento de Kalma. «Hoje é dos dias mais cruéis para aqueles pobres desalojados» - ouço uma voz masculina. Mais um dia que fica marcado pela cruel batalha do maior acampamento do Darfur. Passei por lá no domingo passado, na volta da celebração da eucaristia em Bileil, quando a batalha estava ainda nos seus inícios. Gritos histéricos misturados com o som de algumas balas cruzavam os ares. Parei o carro e fiquei a olhar o triste espectáculo de multidões de mulheres e crianças que fugiam do interior do enorme acampamento. Ofegantes e exaustos, atravessavam os campos de sementeira fresca de sorgo e amendoim, só parando lá longe, ao abrigo falacioso do deserto. No entanto, dentro do acampamento, o conflito entre os diferentes grupos étnicos ali residentes transformara-se numa verdadeira guerra em que se usam varapaus, espadas, facalhões e armas de fogo.

(publicado na "Família Comboniana, nº 207 Set/Out 2010)

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