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Sínodo Africano: Denúncia e Esperança Versão para impressão
Sexta, 01 Janeiro 2010 20:08

O II Sínodo Africano, que decorreu em Roma de 4 a 25 de Outubro e que reuniu mais de 200 bispos africanos, terminou com uma mensagem de denúncia dos males que afectam o continente e de apelo à autoconfiança: «coragem, África, levanta-te»

Apesar dos meios de comunicação social terem passado ao lado do Sínodo Africano, este foi um acontecimento relevante para toda a África. Estavam em discussão assuntos de importância transcendente, como a reconciliação, a justiça e a paz. A Igreja africana, que tem prestado um contributo precioso no desenvolvimento dos seus povos, quer jogar um papel determinante na edificação de sociedades mais fraternas, justas e pacíficas. Para que isto aconteça, é necessário transformar o olhar pessimista e miserabilista sobre África. Reconhecendo os flagelos que afligem o continente e lutando para a sua erradicação, a Igreja alimenta uma visão positiva e cheia de esperança em relação a África. Esta possui riquezas humanas, espirituais e materiais, as quais constituem um verdadeiro património para a humanidade.

«Coragem, levanta-te»

Na missa de encerramento do Sínodo Africano, no dia 25 de Outubro, o papa inspirando-se no evangelho desse domingo que contava a cura do cego Bartimeu, exortou os povos africanos à autoconfiança: «Coragem, levanta-te, continente africano». Aludindo ao tema do sínodo A Igreja ao serviço da reconciliação, paz e justiça, deixou um apelo à Igreja para que seja instrumento e sinal de reconciliação: «A Igreja reconciliada é um poderoso fermento de reconciliação em cada país e em todo o continente africano». «A reconciliação, disse, é condição indispensável para instaurar em Africa relações de justiça entre os homens e para construir uma paz equilibrada e duradoura no respeito por cada indivíduo e cada povo».

No final do sínodo, os bispos dirigiram uma Mensagem ao Povo de Deus, onde estão resumidas as reflexões, discussões e conclusões tidas durante as três semanas de trabalho do sínodo. A abrir, o documento denuncia as más decisões dos líderes locais e estrangeiros que, têm mergulhado as gentes africanas na pobreza, miséria, conflitos e guerras. Mas «a África não deve cair no desespero», encorajam os bispos, porque há sinais positivos, como o fim da guerra em algumas nações e o bom governo encetado por alguns países.

De modo a prevenir divisões étnicas no seio da própria Igreja, a mensagem pede aos sacerdotes que acolham os seus bispos independentemente da sua proveniência geográfica e classe social. Os bispos dirigem-se também aos leigos que desempenham cargos públicos, a quem lhes pedem que «limpem o continente da corrupção, trabalhem para o bem do povo». Uma palavra especial para as mulheres pelo contributo que prestam à sociedade e à Igreja, desempenhando cada vez mais um papel importante nos processos de paz.

 

Mudança na economia

O sínodo propõe uma mudança radical na economia e uma nova ordem mundial porque «muitos dos conflitos, guerras e pobreza da África derivam em grande parte destas estruturas injustas». Critica o papel das multinacionais, acusando-as de «fomentar guerras para acumular rapidamente lucros, graças à desordem provocada e à custa de vidas humanas e de sangue».

Se por um lado, os problemas de África se devem em grande parte à herança do passado e a interesses estrangeiros, por outro lado, denunciam os bispos, há também «um vergonhoso e trágico conluio com líderes locais: políticos que atraiçoam e vendem as nações, homens de negócios corruptos, coniventes com multinacionais vorazes, africanos comerciantes e traficantes de armas, ...e agentes locais de algumas organizações internacionais que são pagos para difundir ideologias nocivas em que eles mesmos não acreditam». Perante esta situação o sínodo exige alto e bom som: «é tempo de mudar de hábitos, para o bem das gerações presentes e futuras».

 

África, senhora do seu destino

Bento XVI irá escrever um documento pós-sinodal com base nas 57 propostas entregues pelos padres sinodais no final do sínodo. O documento servirá de guia à Igreja em África para os próximos anos no seu trabalho pastoral e acção em prol da reconciliação, justiça e paz. Entre as propostas, destacam-se o diálogo inter-religioso, em especial com o Islão, degradação do meio ambiente, a necessidade de democracia em África e a atenção à emigração. A paz e a reconciliação, que foram o tema geral do sínodo, percorrem as diversas propostas do sínodo. Nas propostas pede-se um tratado internacional sobre o tráfico de armas e apela-se ao perdão da divida externa.

Na conclusão da mensagem, dirigindo-se a todos os membros da Igreja, Família de Deus na África, o sínodo reitera a convicção: «África não está abandonada ao fracasso. O nosso destino continua ainda em nossas mãos. A África apenas pede espaço para respirar e para se desenvolver».

O II Sínodo para África valeu a pena, apesar de ter passado despercebido à maioria da opinião pública. Espera-se que tenha repercussão nos homens e mulheres do continente africano. O documento final é belo, cheio de desafios, mas pode correr o risco de não ser apropriado pelas "bases", isto é, pelo comum dos fiéis. Estes não foram envolvidos no processo de preparação do sínodo nas suas comunidades como seria de desejar, devido a dificuldades logísticas.

Pe. António Carlos, membro da CJP-CIRP



Participantes no sínodo

No II Sínodo para a África participaram 244 Padres Sinodais, entre os quais 228 Bispos, incluindo o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga. Aos participantes juntaram-se 29 peritos, 19 homens e 10 mulheres, e 49 auditores, 29 homens e 20 mulheres.

 

A Igreja em África

  • Católicos: 18% da população
  • 657 bispos, 34 658 sacerdotes, 403 diáconos permanentes, 24 729 seminaristas maiores
  • 7 921 irmãos e 61 886 irmãs
  • 614 membros de institutos seculares: 41 homens 537 mulheres
  • 399 932 catequistas
  • 3 590 leigos missionários
  • 56 000 escolas, com 19 200 000 estudantes
  • 6 700 instituições de saúde (hospitais, dispensários, centros da lepra)
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